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Cordas Cruzadas
Cabe numa frase a apresentação mais bem acabada do quarteto de violões Maogani: “É o que há de melhor, hoje, em matéria de execução e arranjo para violão no Brasil”. A definição é insuspeita. Vem de um gênio do ramo. É de Guinga, referência maior da interseção entre popular e clássico na música brasileira contemporânea.
Bastaria a remissão a Guinga para dizer a que veio “Cordas Cruzadas”, segundo CD do Maogani. Porém, o disco é mais. Paulo Aragão, Carlos Chaves, Marcos Alves e Marcus Tardelli se superaram. Fizeram um CD ainda melhor que o primeiro, lançado em 1997 e singelamente batizado de “Maogani”, como quem modestamente dizia “muito prazer”.
Mais uma vez, os arranjos requintados beiram os céus da excelência. Dignos de antologia, conseguem não repetir os originais sem cair na tentação de reinventar as composições. Vale um destaque especial neste particular para Passaredo, canção de Chico Buarque e Francis Hime, que recebe arranjo instrumental estupendo de Paulo Aragão.
Apenas dois arranjos não levam a assinatura de integrantes do grupo – Bananeira, de João Donato e Gilberto Gil, entregue a Célia Vaz; e Pra Lúcia, de Itiberê Zwarg, baixista da banda de Hermeto Paschoal, arranjada pelo próprio autor.
Das 14 músicas (sete delas, inéditas), 10 são instrumentais. Em apenas quatro faixas, os violões são acompanhados de voz – e, no caso deles, não é exagero dizer que a voz acompanha o violão. Uma delas é Choro Réquiem, de Guinga e Aldir Blanc. A emocionada interpretação é de Guinga.
Aliás, recomenda-se logo um pulo à faixa sete do CD. É lá que está Choro réquiem, composição de beleza tão impressionante, em melodia e letra, que concorre para ser a peça mais importante da música brasileira nos últimos tempos.
Além da voz rascante de Guinga, “Cordas Cruzadas” traz participações de Ed Motta, Joyce e Mônica Salmaso – esta última, a maior revelação do canto popular brasileiro na atualidade.
É de Ed Motta A foggy day em Teresópolis, tema sem letra interpretado pelo autor apenas com vocalize, com participações de Cristiano Alves na clarineta e Alexandre Maionese na flauta. É também com vocalize, somente, que Joyce interpreta o seu For Hall, baião em que a compositora e cantora brinca com as palavras para homenagear o guitarrista norte-americano Jim Hall. Mônica Salmaso empresta suas virtudes a Guingando, choro de Edu Kneip e Mauro Aguiar, composto em louvor a Guinga.
O valor de “Cordas Cruzadas” pode ser medido ainda pelos compositores que reúne. Além dos já citados, estão lá Paulinho da Viola (Inesquecível, choro em homenagem a Jacob do Bandolim, gravado pelo autor no disco Memórias Chorando, de 1976); Hélio Delmiro (Chama, choro também já gravado pelo autor); Hermeto Paschoal (Ilza nº 83, valsa inédita composta em memória da mulher do autor, falecida em novembro de 2000); Tom Jobim (Chovendo na roseira, valsa que recebe arranjo renovado de Marcos Alves e Paulo Aragão); Baden Powell (Samba novo); Leandro Braga (Choro nº 2, com participação de Fabiano Salek no pandeiro); e Carlos Chaves (Choro de Bela, primeira composição de um integrante do Maogani gravada pelo conjunto).
Para quem ainda não conhece o Maogani, vale dizer que seus quatro integrantes são jovens: têm entre 24 e 30 anos. A informação certamente vai temperar com mais encantamento a infalível surpresa de quem os estará ouvindo pela primeira vez nestas "Cordas Cruzadas".
Marceu Vieira, setembro de 2001
Trajetória
Ao longo de sua trajetória, o Maogani se apresentou nos principais palcos cariocas (CCBB, Teatro Carlos Gomes, Espaço BNDES, Mistura Fina, Rio Jazz Club, Sesc, Ibam, Teatro Casa Grande, Casa de Cultura Laura Alvim, Circo Voador, Museu da Imagem e do Som, Museu do Telefone, entre outros). Esteve também em cidades como São Paulo, Brasília e Vitória.
Em 1996, o quarteto participou do projeto Pixinguinha no Centro, patrocinado pela prefeitura carioca em homenagem ao centenário do compositor. Apresentou-se durante seis meses em espetáculos ao ar livre no Centro do Rio de Janeiro.
Em junho de 1997, foi convidado especial do show Catavento e Girassol, da cantora Leila Pinheiro.
Em novembro de 1997, o Maogani lançou seu primeiro CD, pelo selo Rob Digital. Participaram do disco artistas tão consagrados quanto Guinga, Leila Pinheiro, Zé Nogueira, Jane Duboc e Célia Vaz. Por esse trabalho, o quarteto mereceu, em 1998, uma indicação para o 11º Prêmio Sharp de Música, na categoria Melhor Grupo Instrumental.
Em janeiro de 1999, o Maogani atuou como convidado de Guinga num show do compositor no Teatro do Planetário do Rio de Janeiro. No mesmo ano, acompanhou a cantora Rosana no projeto Carmem Miranda, o mito, numa série de shows realizados no Centro Cultural Banco do Brasil para marcar o 90º aniversário de nascimento da “pequena notável”. O espetáculo também foi apresentado em São Paulo e Brasília.
Ainda em 1999, em junho, o quarteto atuou no projeto Música do Mercosul, também no CCBB, ao lado de músicos argentinos, paraguaios e uruguaios. Coube ao Maogani representar o Brasil – tarefa cumprida em dois recitais que reconstituíram um panorama da música instrumental brasileira.
Em 2000, o conjunto se apresentou no projeto Rio Bossa Nova 2000, na Praia do Leblon. Logo em seguida, abriu o projeto “Compasso Samba e Choro”, no Paço Imperial, participando também de seu CD comemorativo, gravado ao vivo e lançado recentemente pela gravadora Biscoito Fino.
No final de 2000, o quarteto foi convidado a participar da gravação do CD Cine Baronesa, de Guinga. São do grupo os arranjos e os violões da faixa que batiza o disco (Guinga e Aldir Blanc) e de Fox e trote (Guinga e Nei Lopes).
Em 2001, o Maogani participou da gravação do CD da cantora Ana Martins, lançado em julho, no Japão. No mesmo ano, atuou na gravação do especial Brasil por natureza, da TV Globo, acompanhando o cantor e compositor Ed Motta. Em março, apresentou-se no BNDES, no Rio, com o show Miúcha e Maogani, acompanhando a cantora com arranjos inéditos.
Integrantes
. Paulo Aragão é mestre em Musicologia pela UniRio, aprovado “com louvor” em seu estudo sobre o arranjo musical brasileiro na década de 30. Bacharel em Violão pela UFRJ, foi diplomado com o título de “Dignidade Acadêmica Summa cum laude”. Tem trabalho destacado também como arranjador (fez arranjos para discos como “Cine Baronesa”, de Guinga, e “Linda”, de Ana Martins). Atua também como solista. Como professor, ministrou a Oficina de Choro da UERJ, em 1996. Recentemente, apresentou-se no Japão com a cantora Ana Martins, em participação especial no show de Joyce.
. Carlos Chaves é mestre em Música Brasileira pela UniRio. Bacharel em Violão pela UFRJ, venceu, em 1996, o concurso nacional Souza Lima, em São Paulo. Em agosto de 2001, venceu com sua composição “Choro de Bela” o Festival de Americana (SP), na categoria música instrumental. Estudou com os principais nomes do violão do Rio de Janeiro. Atua como solista, camerista e acompanhador.
. Marcos Alves é bacharel em Violão pela UFRJ, graduado com nota máxima. Compositor, destaca-se por explorar sua formação erudita e jazzística como intérprete e arranjador de música popular. Atualmente, acompanha as cantoras Carol Saboya e Adriana Romano.
. Maurício Marques formou-se em violão pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas) no ano de 1998, desenvolvendo atividades voltadas à composição e orquestração, sob a orientação de Ivan Jevitic (França), utilizando o folclore do Rio Grande do Sul como temática. Em 2000, gravou com o acordeonista Oscar dos Reis um CD com a Obra de Astor Piazzolla. Em 2003, apresentou-se em Possadas (Argentina) ao lado de Luiz Carlos Borges e Renato Borguetti. Em 2004 concorreu ao Premio Visa de Musica Instrumental Brasileira.
Repertório: Ouça trechos das músicas em MP3.
Rob Digital
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